PLUTÓRBID

    O meu amor por epopeias não veio sozinho; teve o fascínio pela mitologia grega a acompanhar. Lembro-me das aulas de História de quinto e sexto ano, em que falávamos de civilizações antigas e mil detalhes arquitectónicos que simplesmente não me interessavam, mas o entusiasmo na parte da mitologia era sempre palpável. Com o passar do tempo, a Grécia Clássica acabou por ser o foco da minha curiosidade mitológica, o que me levou a estudar os mesmos tópicos na faculdade.

No minor de Estudos Clássicos, li variadas tragédias gregas e cheguei até a compará-las com versões romanas das mesmas histórias, ou literatura portuguesa inspirada por estas. É interessante como os Fados podem levar uma pessoa ao local exato onde precisa de estar, quando mais precisa de lá chegar.

A renovação dos meus conhecimentos sobre mitologias antigas e religiões mundiais desenvolveu o meu estilo de escrita de uma forma incontrolável. Lembro-me de um amigo me perguntar como é que uma pessoa que cresceu fora da Igreja podia ter tanto trauma religioso na sua escrita, o que me fez rir imenso no momento. A verdade é que não precisamos de passar pelas coisas para sentir empatia por elas, e se há coisa que recheia a minha carteira é empatia. (No fundo, obrigada pelo comentário Artur; tens toda a razão.)

É claro que a minha própria exploração daquilo que significa ser uma pessoa supersticiosa ou de fé também influenciou aquilo que passei a escrever e aquilo que planeei para o futuro do meu projeto. Perder o meu avô só renovou as minhas divagações: qual o efeito da morte na psique dos seres humanos e até que ponto estamos dispostos a procurar atividades que nos distraiam da sua eminência?

Nunca tive medo de morrer e continuo a não ter, mas a fascinação do mórbido é constante. O culto dos mortos iniciou-se com as comunidades agropastoris, segundo os livros de história, e as documentações de formas de os respeitar são extremamente diversas e belas à sua maneira. Até no que toca a animais, arranjámos formas de respeitar e honrar a sua partida deste mundo para o outro - mas existe outro?

Acho que o projeto Plutórbid foi uma forma criativa de explorar essa pergunta. Acredito que não há só uma resposta correta, porque o que mais interessa é aquilo que nos traz conforto. Escrever e descrever aquilo que nos traz o horror, de forma a procurar o que significa atingir o pacífico e justo, acaba por ser o meu primeiro desejo com o nascimento deste projeto… até que o deixei cair no esquecimento.

As personagens que criara já eram meus filhos de papel, em certa forma, por serem tão palpáveis na minha mente. No entanto, este não era um projeto que eu quisesse limitar ao meu blogue ou à publicação online; era algo no qual eu estava a despejar de rajada partes de mim que sempre sonharam em segurar num livro com o meu nome. 

Em 2024, com uma depressão astronómica em cima, não me parecia o tempo indicado para investir no sonho que sentia tão longínquo. Por coincidência - e voltando à ideia de Fado - o meu percurso de vida levava-me sempre de encontro a escritores, pessoas com experiência na publicação tradicional que tendiam a motivar-me a publicar também. Nunca deixei de participar em cursos e workshops de escrita criativa, na esperança de aperfeiçoar todos os defeitos que imaginava e detalhava na minha escrita, inconscientemente provocando um crescimento galopante na minha coragem de partilhar as minhas palavras e os meus próprios conhecimentos.

Agora estamos aqui, juntos. Tu, que lês, e eu, que escrevo, e sem dúvida os robôzinhos que analisam tudo o que é publicado na internet. Todos nos perguntamos qual será o próximo passo para concretizar o projeto Plutórbid e nem este texto nem o anterior parecem fornecer pistas suficientes sobre o acontecimento.

Fica para a próxima.

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