as origens das origens


Todos os anos faço mil planos de escrita, na esperança de que finalmente tenha chegado “a minha vez”. Não sei bem quem me disse que era suposto esperar, ou onde fica a fila de pessoas que estão à espera dessa “vez” ou até mesmo se há a hipótese de já a ter perdido. 

Enquanto ainda estava a estudar, esperei pacientemente. Tinha tantas coisas para fazer, os poemazitos que escrevia não podiam ser assim tão importantes. Até daquela vez que foram e consegui publicar acabei por não receber um tostão, porquê continuar?

A minha psicóloga chama-lhes pensamentos distorcidos, a internet diz que é síndrome de impostor e as pessoas da vida chamam-lhe preguiça. Eu não sei o que lhe chamar, mas gosto de dizer que sou demasiado nova; é uma expressão agradável que me faz sentir que ainda falta muito tempo para fazer muitas coisas, e que também me relembra que o meu prazo de validade provavelmente é mais longo do que a minha adolescência me levou a pensar.

Eu escrevia imenso quando era mais nova - coisas tenebrosas e demasiado intensas para a minha idade (sempre fui demasiado intensa para a minha idade, muito triste, muito pessimista, muito muito e não demasiado), até que me convenceram que só a poesia amorosa é que “dava”. Os adultos inventam muitas palavras para dizer que a arte é só para quem nasce em berço de ouro, e que o resto dos coitados têm é de trabalhar para lá chegar. E as crianças… essas repetem o que ouvem os adultos dizer.

Tentei escrever sobre amor, mas mesmo assim a escrita era politizada e só “Deus” sabe o que faz uma mulher lésbica politizada com a sua vida. Nós pomos rótulos uns nos outros, que nos deviam ajudar a respeitarmo-nos melhor, e acabamos criticados e enxovalhados. Não sei se quero pôr rótulo na minha poesia, ou em qualquer outra coisa que escrevo; vou ser sempre eu, vulnerável. Talvez não gostar do que escrevo seja não gostar de mim.

Chego ao vazio da página, e cá estou eu. Não queria ser professora, mas a vida trouxe-me para esse emprego e agora adoro o que faço. Queria ser escritora, e deixei a caneta em cima da mesa porque não tinha tempo, nem saúde, nem amor, nem nada. O que se pode fazer aos 23 anos, quando já devias saber tudo sobre a vida, mas não sabes quase nada porque todos os dias a vida muda? Acho que é isto mesmo que se faz, tudo e (nota para a Débora de 2036: inserir sinónimo de nada, que há quem diga que não se deve repetir muito no texto). 

No meio de escrever isto tudo, tenho pensado nas regras que aplico à minha escrita e, talvez, à minha vida. Sempre fui uma apaixonada pela epopeia e a ideia de que um grande herói pode ser imortalizado em páginas de papel, mesmo numa era em que os telemóveis parecem ser a única coisa que cabe nas carteiras das pessoas. (Ao menos, com o tamanho das ditas tote bags, cabe aí dentro um e-reader ou um tablet com livraria?) 

Se fosse a minha vez de escrever uma epopeia, não queria que fosse sobre um herói colonial, que matou muito Zé Povinho que nunca mereceu nem nunca merecerá. Bernardine Evaristo mostrou-me o tipo de epopeia que sonhava estar ao meu alcance - o canto de quem sofre, uma perpétua queixa de Camões contra o reino, com um pouco de tragédia greco-romana no meio. The Emperor’s Babe é tudo aquilo que eu não sabia que estava no mercado editorial, que marcava uma presença fora da ordem como eu precisava de ver.

Por isso, se eu tivesse de resumir a razão pela qual escrevi este texto todo, cheio de reviravoltas que lembram só o labirinto da minha cabeça, era para anunciar isso mesmo. A minha epopeia, a história dos meus heróis que são como eu e tu; sofrem como eu e tu, e outras pessoas que precisam de se sentir representadas e, quiçá, escrutinadas ao nível do raio-x e da ressonância magnética. O contexto pode não ser muito importante para quem lê os livros, mas para uma estudante de literatura como eu é aquilo que dá alma ao livro.

Mas isto é só o início.


PS.: se és meu aluno e por obra satânica encontraste isto, não comeces frases por mas. Se és outra pessoa qualquer… não comeces frases por mas. 

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